22 de novembro de 2019

Serviço de streaming da Apple inaugura com muitos astros, mas pouco conteúdo

Gigante de tecnologia lança seu Apple TV+, serviço pago de conteúdo audiovisual que deseja rivalizar com a pioneira Netflix


Por Folhapress Publicado 01/11/2019
Reprodução/Apple

A guerra do streaming ganha um dos seus capítulos mais importantes. A gigante de tecnologia Apple, avaliada em valor de mercado acima de US$ 1 trilhão (cerca de R$ 4 trilhões), inaugura seu Apple TV+, serviço pago de conteúdo audiovisual que deseja rivalizar com a pioneira Netflix.

Com uma mensalidade de R$ 9,90 no Brasil, o Apple TV+ chega a mais de cem países com um conteúdo mais enxuto que seus concorrentes diretos e diz apostar na qualidade das suas séries. O serviço não tem o apoio de um catálogo pré-existente nem a parceria de um estúdio de cinema ou televisão.

A empresa, portanto, investiu cerca de US$ 6 bilhões (cerca de R$ 24 bilhões) para começar totalmente do zero -com injeção de mais de US$ 1 bilhão (cerca de R$ 4 bilhões) anual para a criação e manutenção do conteúdo original. “Dois anos atrás, quando vendemos nossa série para a companhia, o escritório do Apple TV+ era dentro do prédio da Beats (empresa de Los Angeles comprada pela Apple em 2014) e só havia umas cinco ou seis pessoas trabalhando lá dentro. Era muito pequeno. Agora, virou uma emissora completa. É inacreditável”, lembra o diretor e produtor Francis Lawrence, responsável pela série de fantasia “See”, parte da primeira onda de lançamentos do serviço.

O Apple TV+ abre com apenas nove atrações originais. O carro-chefe é “The Morning Show”, série dramática sobre um programa matinal de TV sacudido por denúncias de assédio sexual. Ela é protagonizada pelo trio Jennifer Aniston, Reese Witherspoon e Steve Carell. A programação ainda tem Hailee Steinfeld (“Dickinson”), Joel Kinnaman (“For All Mankind”) e Oprah Winfrey (“Oprah’s Book Club”) como chamarizes.

Nos próximos meses, o serviço terá séries de M. Night Shyamalan, J.J. Abrams e Steven Spielberg, mas sem a volúpia dos concorrentes. “Estamos focando apenas em conteúdo original de alta qualidade. Nosso foco não é catálogo. Acreditamos que as outras emissoras, com tanto volume de produção, possuem um foco mais espalhado, portanto podemos transformar nossos lançamentos em eventos”, afirmou ao Los Angeles Times Jamie Erlicht, chefe de programação do Apple TV+ ao lado de Zack Van Amburg.

Para chegarem à tal conclusão, os executivos que, à frente da Sony TV, deram sinal verde para “Breaking Bad” e “The Crown”, reuniram suas equipes no início do processo para formarem uma lista de séries preferidas.

A intenção era compreender não apenas a razão do sucesso de fenômenos como “Game of Thrones”, mas mergulhar em programas de pouca audiência, porém de público fiel. Depois do estudo, os dois basearam suas escolhas em princípios de “humanidade” e “simplicidade”. “É a alma de muitos produtos da Apple. Parecem simples, mas te permitem fazer coisas incrivelmente complexas”, explicou Van Amburg.

As diretrizes foram implementadas, mas não sem obstáculos. “The Morning Show” foi criada para ser uma série leve sobre a vida das pessoas que comandam um programa matinal de TV, mas foi alterado quando notícias de assédios sexual passaram assombrar diversos noticiários reais nos EUA.

O showrunner original foi demitido e substituído. O piloto precisou ser reescrito e refilmado para acrescentar um ângulo mais relevante ao personagem de Carell, agora afastado do emprego por acusações de má conduta com várias colegas de trabalho.
“Quando começamos o projeto, nada disso tinha acontecido. Seria irresponsável não tratar sobre o assunto”, resumiu Witherspoon em entrevista ao Yahoo Entertainment. “Isso abriu outra porta e assim encontramos essas histórias inacreditáveis que acrescentaram complexidade à serie”, completou Aniston, que também é produtora executiva da série orçada em US$ 300 milhões por duas temporadas.

Alena Smith, criadora de “Dickinson”, uma reimaginação da vida da poetisa Emily Dickinson (Steinfeld) com linguagem contemporânea, confirma que existiram desentendimentos durante a produção da série, mas que teve apoio dentro da Apple.
“Servant”, que tem o primeiro episódio dirigido por Shyamalan, fala sobre uma estranha babá que precisa cuidar de um bebê ainda mais esquisito. Rumores apontam que a Apple pediu mudanças numa cena específica com um crucifixo. A empresa também teria pedido a todos os autores para haver um cuidado com críticas à China, base das suas maiores fábricas de produtos eletrônicos.

Apesar disso, o conteúdo geral das séries não deve em nada ao tom sombrio das produções modernas de canais como HBO ou Netflix. “See”, criada por Steven Knight (“Peaky Blinders”), se passa centenas de anos no futuro da Terra, quando os humanos perderam a capacidade de visão. Jason Momoa faz o líder de uma tribo e precisa proteger os filhos adotivos, caçados por conseguirem enxergar. Atores deficientes visuais fazem parte do elenco, o que dá verossimilhança aos oito episódios da primeira temporada.

“Não gosto de comparar com ‘Game of Thrones’, porque estamos falando de um fenômeno que virou uma das maiores séries da história. Mas as duas estão no mesmo nível de qualidade. Esse é o melhor papel da minha carreira e tenho a sorte de fazer parte de algo inédito pois temos guerreiros, amantes e vilões cegos”, exalta Momoa à Folha.

Seguindo o tom controverso e sexual da criação de George R.R. Martin, “See” possui uma vilã que reza enquanto se masturba. “Não tivemos nenhum problema em relação a isso. Ninguém nos censurou”, conta Francis Lawrence. “Essas histórias surgem porque é o lançamento do serviço, mas todos os estúdios têm problemas em suas produções. Nossa experiência foi fantástica.”