15 de dezembro de 2019

‘Entrevista Aberta’ fala sobre Roque Santeiro

O Brasil não imaginava, e muitos ainda não sabem, o quanto foi difícil para que os capítulos escritos por Dias Gomes, com colaboração de Aguinaldo Silva, fossem ao ar em horário nobre da Globo


Por Estadão Conteúdo Publicado 02/12/2019
Reprodução/TV Globo

Perto de completar 35 anos de sua conturbada e histórica exibição – o primeiro capítulo foi ao ar em 24 de junho de 1985 -, a novela Roque Santeiro será tema da segunda edição da noite Entrevista Aberta, apresentada pelo jornalista do Estadão Julio Maria. Na primeira parte, a também jornalista Laura Mattos responde a perguntas sobre seu livro Herói Mutilado – Roque Santeiro e Os Bastidores da Censura à TV na Ditadura, lançado recentemente pela editora Companhia das Letras. Na sequência, a cantora Patricia Bastos e o violonista Norberto Vinhas trazem todo o repertório consagrado pela trilha sonora da novela. O evento será na próxima segunda-feira (9), às 20h30, na casa de shows Bona, em Pinheiros, capital paulista.

O Brasil não imaginava, e muitos ainda não sabem, o quanto foi difícil para que os capítulos escritos por Dias Gomes, com colaboração de Aguinaldo Silva, fossem ao ar em horário nobre da Globo. Uma verdadeira saga paralela vivida pelo autor e pelos diretores da emissora fizeram de Roque um símbolo de resistência contra a ditadura instalada desde 1964.

Tudo começou 20 anos antes, com a peça O Berço do Herói, escrita por Gomes, então dramaturgo e integrante do Partido Comunista. Apesar de conviver com um contexto político recente, o regime militar completava apenas um ano no poder, a peça não pôde ser encenada por decisão da censura. Dez anos depois, em 1975, o autor uniu-se a Aguinaldo Silva, já na Globo, para tentar ludibriar os censores reescrevendo o texto e adaptando-o para a TV.

Uma ligação interceptada pelos militares, no entanto, instigou a vingança. Dias Gomes falava com um interlocutor sobre a decisão de burlar o regime sem saber que estava sendo espionado. Os militares deixaram que a produção seguisse até o dia da estreia, quando a emissora recebeu um ofício do Departamento de Ordem Política e Social decretando a nova censura.

Mais dez anos foi preciso até que a Globo tentasse revisitar a saga de Roque Santeiro. Dias sentiu o clima da abertura em 1985 e a Globo chamou alguns atores da primeira versão de volta (apenas Lima Duarte aceitou) para refilmar os 36 capítulos que haviam sido registrados dez anos antes e filmar novos, mas as tesouras dos censores não deixaram de atuar.

Laura Mattos faz um grande mergulho na trajetória das três censuras analisando cartas, cerca de 2 mil páginas de documentos secretos e um diário de Dias Gomes, morto em 1999, mantido inédito até ser revelado pela autora.