11 de dezembro de 2019

Com Seu Jorge, ‘Irmandade’ mergulha em presídio para falar sobre facção criminosa e racismo

Ambientada em 1994, a história de "Irmandade" é uma clara referência ao PCC, mas a inspiração está mais nas regras adotadas pelos seus membros, como batismo de membros e tribunais do crime


Por Folhapress Publicado 25/10/2019
Reprodução/Netflix

Estrelada por Seu Jorge, Naruna Costa e Wesley Guimarães, a série ficcional “Irmandade” estreiou na sexta-feira (25) na Netflix, e tem como trama central a história de Cristina (Naruna Costa), uma advogada honesta que se vê forçada pela polícia a desmembrar a organização criminosa criada pelo irmão, Edson (Seu Jorge), chefe da facção Irmandade.

Na história, Cristina ficou 20 anos sem falar com Edson, se dedicando a sua carreira no Ministério Público e a relação com seu outro irmão, Marcel (Guimarães), que acaba se envolvendo nessa trama que mistura crime e família. Pela primeira vez, o primeiro episódio foi disponibilizado de graça a não assinantes.

Ambientada em 1994, a história de “Irmandade” é uma clara referência ao PCC (Primeiro Comando da Capital), mas a inspiração está mais nas regras adotadas pelos seus membros, como batismo de membros e tribunais do crime, e quase nada da própria história do maior grupo criminoso do país.

Diretor de “Cidade dos Homens” (2002-2005/2017-2018) e de “Entre Nós” (2014), Pedro Morelli afirma que ambientou a história na São Paulo dos anos 1990 para mostrar a origem das facções criminosas. “Todos sabem que os presídios sempre estiveram em condições precárias, que nunca houve o mínimo de obediência aos direitos humanos. Os presos se uniram em busca desses direitos e foi assim que surgiu o crime organizado”, diz Morelli. “Essa opressão do estado se mostra uma estratégia fracassada, porque ela mesmo criou essa reação de violência. Se houvesse o mínimo de dignidade, não teria se alimentado o crime”, completa.

A comunidade mais afetada nesse ciclo vicioso, diz Naruna Costa, é a negra. Por isso, a atriz defende a iniciativa do diretor e ressalta que o racismo é um problema de todos, não só dos negros. “Morelli tomou o papel de aliado a esse movimento ao contar uma história como essa. Muita gente não quer mexer nessas feridas, mas elas estão aí. Tomamos o cuidado, juntos, de não reproduzir alguns estereótipos relacionados ao negro e à violência. Precisamos debater e não reafirmar um pensamento.”
Juntos como protagonistas, Naruna e Seu Jorge contam que levaram muito de sua infância e experiência de crescer como negros na periferia à construção da série. Naruna, 36, em São Paulo, e Seu Jorge, 49, no Rio.

“A semelhança da personagem de Cristina com a minha vida é o fato de ela ser uma sobrevivente. No primeiro dia do ensaio, o Seu Jorge fazia crochê e falamos sobre nossas vidas”, rememora Cristina.

“Ouvir a história dele de infância foi muito enriquecedor e achei tão parecida com a minha, mesmo sendo de outro lugar e de outra década. São histórias que se cruzam por ser parte do dilema que vivemos. Parecia o mesmo quintal, de gerações diferentes”, diz Costa. “A hora que o personagem de Cristina chora, tem um choro nosso ali”, completa Seu Jorge.

O ator baiano Wesley Guimarães, que interpreta Marcel, afirma ser uma grande conquista integrar esse elenco e fazer parte dessa trama. Criado na periferia da capital Salvador, Guimarães iniciou sua carreira ao participar de projetos voluntários e de peças teatrais nas paróquias de sua região.

De lá para cá, ele já participou de “Trampolim do Forte” (2010), de João Rodrigo Mattos, e de “O Sangue É Quente da Bahia” (2013), de Aurelio Grimaldi, além de protagonizar o elogiado “Tungstênio” (2018), de Heitor Dhalia.

A série ainda tem no elenco Hermila Guedes (no ar em “Segunda Chamada”), que vive Darlene, mulher de Edson, um dos lideres da Irmandade ao lado de Carniça, papel de Pedro Wagner. Lee Taylor, na TV em “A Dona do Pedaço” (Globo) interpreta Ivan, que se envolve com a facção dentro da prisão. Já Danilo Grangheia é o delegado Andrade, que tenta exterminar a organização criminosa.

‘CORRENDO PELO CERTO’

Em “Irmandade”, o grande dilema da família de Cristina diz respeito ao conceito de correto, isto é, o certo dentro das possibilidades de cada um. A infância dos irmãos é mostrada, em flashbacks, na qual mostra um pai tão rígido com os filhos, que entrega um deles à polícia por porte de maconha. É assim que Edson vai parar na prisão e acaba líder um facção criminosa.

“Ele criou os filhos na periferia, lugar onde uma família negra está totalmente exposta à violência. Para sobreviver em um ambiente como esse, uma das soluções é manter essa rigidez. Sendo preso, Edson tentou se organizar dentro do que era correto, mas na realidade da prisão”, diz Naruna.

Já a ideia do que é certo para Cristina vai se desfazendo com o tempo. “Ela é uma menina preta da periferia que conseguiu se formar advogada e trabalhar no Ministério Público. Ela acha que isso seria o mais correto, mas tudo se quebra quando ela se reencontra com o irmão”, explica a atriz. “A Justiça funciona de formas diferentes para cada um, e a Cristina traz essa reflexão sobre as decisões que ela pode tomar dentro desse contexto que ela vive”, completa.

Como o personagem de Seu Jorge passa a maioria dos oito episódios da série dentro da prisão, o ator afirma se dedicou a estudar as gírias paulistanas. “Tive alguns amigos que me ajudaram, como Mano Brown, que me dizia, ‘hei, os caras não falam assim não, hein?”, conta Seu Jorge.

Produzida em parceria com O2, as cenas da série foram gravadas em uma área desativada de um presídio paranaense, e deram uma vivência bem real aos atores. “Enquanto eu gravava uma cena de rebelião, os caras gritavam na janela: ‘ei, Seu Jorge, representa ‘nóis aí’. Isso não é brincadeira não”, diz Seu Jorge, que ressaltou ainda a importância dos mais de 500 figurantes. “Todos deram o sangue para aquelas cenas, principalmente quanto estouram rebeliões e briga de facções.”