25 de maio de 2020

Cinegrafista de afiliada da Globo é agredido durante reportagem sobre coronavírus em MG

Depois dos chutes e golpes, ele ainda chuta a câmera e sai gritando "lixo"


Por Estadão Conteúdo Publicado 21/05/2020

Um vídeo que mostra um homem de camisa vermelha agredindo outro, que carrega uma câmera filmadora e um tripé nas mãos, viralizou nas redes sociais como mais um episódio de agressão a jornalistas no Brasil. Depois dos chutes e golpes, ele ainda chuta a câmera e sai gritando “lixo”.

O homem que tentava se esquivar das agressões era o cinegrafista Robson Panzera, 27, da TV Integração, afiliada da Rede Globo na região de Juiz de Fora (MG). O episódio registrado no vídeo aconteceu na manhã de quarta-feira (20), em Barbacena (a 173 km de Belo Horizonte).

Leonardo Rivelli, 54, foi preso em flagrante sob a acusação de dano qualificado e lesão corporal, mas foi liberado após pagamento de fiança. Um inquérito foi aberto pela Polícia Civil de Minas Gerais para apurar o caso.

Por volta das 11h30, Robson gravava imagens externas da Epcar (Escola Preparatória de Cadetes do Ar), para uma reportagem sobre casos de alunos infectados pelo novo coronavírus, quando Rivelli, que passava de carro, começou a xingá-lo, com expressões como “Globo lixo”, e a filmá-lo com o celular.

“Ele parou o carro e foi me filmar, falando um monte de coisa, xingando, dizendo que a reportagem que eu estava fazendo era mentira”, conta o cinegrafista. “Tudo ele filmava. Tem um momento em que eu o aplaudo e falo ‘parabéns, você está certinho’. Ele disse que ia mandar o vídeo para um grupo, onde tinha um monte de gente xingando e brigando com o pessoal da Globo.”

O homem seguiu com as agressões verbais. Em um momento, disse ao cinegrafista que quebraria todo o equipamento dele. O vídeo de um minuto, gravado pela repórter Thais Fulin, colega de Robson, começa neste momento.

Nele, Robson aparece tentando escapar, na rua, com a câmera e o tripé nas mãos, quando o homem vem atrás. Ele tenta se esquivar das agressões com a câmera na mão e deixa o tripé cair, sendo pego por Rivelli. O homem tenta agredi-lo com o equipamento, quando o cinegrafista larga a câmera em um degrau da calçada e vai para a rua. Rivelli, então, chuta a câmera três vezes.

“A gente tem sofrido agressões verbais diariamente no nosso trabalho na rua, isso está sendo rotineiro. A gente está acostumado, de uma forma errada, com as pessoas xingando nas ruas, falando ‘Globo lixo’, ‘Globo mentirosa’, mas não passava disso”, diz Thais Fulin. “Hoje passou de todos os limites. A gente ficou bem assustado.”

Depois de chutar a câmera, Rivelli foi embora, e Robson Panzera chamou a polícia. Quando ele relatava aos policiais o episódio, o homem voltou a passar de carro pelo local e foi abordado. Eles também prestaram depoimento à Polícia Civil.

Segundo a ocorrência registrada, Rivelli disse que estava cansado de ver a TV espalhar terror e que, ao presenciar a reportagem no local, decidiu filmar. Ele disse que o cinegrafista o agrediu antes –e que ele apenas revidou. A reportagem não conseguiu localizá-lo para comentar.

Robson Panzera foi encaminhado para a Santa Casa, onde constatou uma lesão no dedo anelar esquerdo. Rivelli não precisou ser encaminhado para hospital, mas fez exame de corpo de delito, por ter levado um soco. Ele foi preso e solto sob fiança.

“A gente está trabalhando, saindo de casa, para informar, para que as pessoas fiquem mais seguras e tranquilas. Tem que dar um basta [nessas agressões], é inaceitável. A gente está contaminado por uma polarização, onde os lados são muito agressivos e extremistas. ‘Olho para aquilo que eu acredito e não existe mais nenhuma verdade em volta'”, diz Robson.

No domingo (17), a repórter Clarissa Oliveira, da Band, foi atingida com uma bandeirada na cabeça por uma apoiadora do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), em Brasília. À Folha a mulher, servidora pública, disse que o ato foi um acidente.

O episódio em Barbacena gerou manifestações de apoio ao cinegrafista do Sindicato de Jornalistas de Minas Gerais, Instituto Vladimir Herzog e da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), entre outros.

“A violência contra um jornalista é um ataque contra a democracia e contra a imprensa livre. Essa vulnerabilidade dos jornalistas ao fanatismo de militantes não pode ser endossada por governantes. Os líderes políticos de países democráticos devem defender uma imprensa livre. A Abraji exige que as autoridades policiais apurem o ataque e punam os responsáveis”, diz Daniel Camargos, diretor da Abraji.