21 de novembro de 2019

Novo álbum de gravações caseiras mostra genialidade de David Bowie

Como era esperado, continuam saindo discos póstumos de David Bowie (1947-2016).


Por Folhapress Publicado 24/06/2019
Divulgação

Como era esperado, continuam saindo discos póstumos de David Bowie (1947-2016). Além das caixas luxuosas de compilações, fetiches para fãs, outro filão farto são as gravações dos anos 1960, como as que integram o álbum recém-lançado “Spying Through a Keyhole”.
A partir de 1966, Bowie queria deixar de lado a carreira de mímico e ator para ser de vez um cantor. Lançou um disco em junho de 1967, que leva seu nome, pelo selo Deram.
Mas gravava loucamente, em casa ou em estúdios com amigos, numa produção difusa de canções que viraram singles obscuros ou ficaram conhecidas apenas nos shows.
Em novembro de 1969, soltou pela Philips seu segundo álbum, mais uma vez com seu nome, e nele estava seu primeiro hit e um dos hinos do rock, “Space Oddity”.
“Spying Through a Keyhole” tem nove faixas que são demos, o jargão que define um rascunho de música, uma gravação para servir de registro a ser melhorada depois. E “Space Oddity” aparece duas vezes.
A primeira versão é um trecho de quase três minutos, com Bowie tocando violão e cantando parte da letra. O vocal é ótimo. A outra versão tem a música completa, com algumas mudanças na letra conhecida da gravação oficial.
É apresentada em dueto de voz e violão, e quem acompanha Bowie é John “Hutch” Hutchinson, que foi guitarrista do cantor entre 1966 e 1973.
Na verdade, a ideia original da composição era ser cantada por duas pessoas, o narrador e o personagem, Major Tom, mas depois Bowie preferiu fazer todos os vocais.
“Angel Angel Grubby Face” também tem duas versões. Uma é simpática, lembra as baladas psicodélicas que Donovan lançava na época.
A segunda tem um tom dramático, é mais lenta, e claramente tem uma outra guitarra na gravação. Talvez de Hucthinson ou de Tony Hill, outro amigo de Bowie.
Todas as faixas são gravações caseiras, com voz, violão e às vezes uma guitarra ou uma gaita. O registro mais antigo é “Mother Gray”, composta para o que seria o segundo álbum de Bowie para o selo Deram, mas o projeto foi abortado e as canções ficaram no repertório de shows do cantor.
A mais bem resolvida do pacote, depois de “Space Oddity”, é “In the Heat of the Morning”, que acabou lançada em single e depois no álbum “The World of David Bowie” (1970), coletânea caça-níqueis para aproveitar o sucesso de Bowie e nunca reconhecida por ele como um de seus discos oficiais.
A única faixa totalmente desconhecida, nunca gravada ou tocada em shows, é “Love All Around”, que soa fofa no violão mas há indícios de que poderia ter um tom mais épico se gravada com banda completa.
Mesmo caso de “Goodbye 3d (Threepenny) Joe”, que tem trechos de letra e ideias musicais de outra canção, “Threepenny Pierrot”, que Bowie gravou para um programa de TV em 1970.
Completa o disco uma faixa poderosa, “London Bye, Ta-Ta”, sucesso em shows da época e aqui numa versão que se encaixaria muito bem no repertório de seu terceiro álbum, “The Man Who Sold the World” (1970).
Sim, são apenas rascunhos. Mas poderiam vir com o aviso “Silêncio: gênio trabalhando”.

SPYING THROUGH A KEYHOLE
Onde: Disponível nas plataformas digitais
Autor: David Bowie
Gravadora: Warner
Avaliação: Muito bom