18 de novembro de 2019

Jogador balança joystick para acalmar bebê em ‘Death Stranding’

Game mistura ciência e sobrenatural como só as terras de "Evangelion" e de "Final Fantasy VII" conseguem.


Por Folhapress Publicado 01/11/2019
Divulgação

O que aconteceria se a Marvel financiasse o próximo filme do surrealista David Lynch? Os videogames ensaiam essa resposta com a Sony bancando o japonês Hideo Kojima no jogo “Death Stranding”, uma distopia de um carteiro grávido. Uma parte desse orçamento foi destinado a figuras estreladas para dar cara e voz aos personagens do game, como Norman Reedus (da série “The Walking Dead”), Léa Seydoux (de “Azul é a Cor Mais Quente”) e Guillermo del Toro (diretor do oscarizado “A Forma da Água”).

Kojima é reconhecido como um diretor autoral de grandes produções. Yoko Taro (“Nier: Automata”) e David Cage (“Detroit: Become Human”) são outros que desfrutam dessa condição, mas sem o mesmo prestígio.

O criador de “Death Stranding” construiu sua fama na franquia “Metal Gear”, série de ação que se destacava por surpreender na narrativa. Comparada à franquia, o novo jogo tem menos humor, erotismo e metalinguagem. Aumentam as doses de política e de bizarrices.

O novo jogo parte de uma premissa pouco convencional para produções do seu porte. Em vez do típico herói, o jogador é Sam, entregador em um futuro pós-apocalíptico tomado por fantasmas e chuvas que envelhecem o que tocam –chuva ácida seria uma solução muito convencional.

Ao estilo de aplicativos como Rappi e Uber, notas e curtidas são dadas por levar coisas de lá para cá rapidamente e sem danificá-las. Em certos casos, a missão consiste em levar pessoas e cadáveres nas costas. Quanto mais encomendas o personagem carregar ao mesmo tempo – e dá para levar uma pilha com o dobro de seu tamanho -, maior a recompensa. É uma volta à lógica de pontuação dos videogames, uma métrica que era popular na era dos fliperamas.

Deslocamento é o ato essencial do videogame. É assim desde o “Pong”: acione a alavanca para cima ou para baixo para rebater uma bolinha. Quase meio século depois, “Death Stranding” aprofunda o ato de ir do ponto A ao ponto B.
Por mais que o mundo de Kojima tenha perigos próprios, como ladrões de carga e fantasmas, o terreno é o que exige mais atenção. O ângulo de inclinação, pedras, profundidade de rios, quantidade e peso dos itens carregados importam na física do jogo.

É preciso estratégia para pensar as rotas. Vale o risco carregar muitas coisas para aproveitar a viagem? A interface (HUD, no jargão) complicada, com letras diminutas, espantará os iniciantes. Os sedentos por desafios em testes de reflexo não encontrarão em “Death Stranding” tarefas exigentes. Ele tem jogabilidade fluida (algo ausente em muitos “Metal Gear”), mas sua atração está na história.

O game mistura ciência e sobrenatural como só as terras de “Evangelion” e de “Final Fantasy VII” conseguem.
Em um futuro próximo, nos Estados Unidos, houve o “death stranding” (que pode ser traduzido como “evento de morte”), uma explosão que fez com que os espíritos dos mortos deixassem de ir para o além.

Arco-íris ou chuva são sintomas de que essas entidades estão por perto. Além disso, corpos precisam ser incinerados de maneira apropriada. Do contrário, um desses fantasmas pode entrar em contato com eles e gerar uma explosão de proporções atômicas.

Essas entidades são, porém, vulneráveis ao sangue, fezes e xixi de Sam. Uma ida no banheiro do personagem, desse modo, não é perda de tempo, e gera granadas de excrementos. Para enxergar os tais fantasmas, é preciso carregar um bebê prematuro em uma redoma. A criança precisa estar calma, então de vez em quando é necessário embalar o joystick para ela parar de chorar.

A partir dessa premissa, Kojima fala sobre masculinidade. O ato de ligar e desligar a incubadora, uma gravidez masculina pragmática, gera emoções em Sam, que chora o tempo todo -não só ele, aliás, uma vez que todos os personagens de “Death Stranding” estão propensos a lacrimejar. Para completar, o personagem tem afefobia, ou medo de ser tocado.

Em declarações públicas, o diretor insiste que sua obra discorre sobre conexão. Isso de fato está presente no argumento da trama -para reconstruir os EUA, é preciso colocar as cidades numa internet ultrapotente. Quando um novo ponto é conectado, é possível ver as criações e as influências que outros jogadores deixaram no cenário. Dessa forma, Kojima eleva a um novo patamar as interações de “Journey” e “Nioh”, obras pensadas para um jogador, mas que podem sofrer influências de outros usuários.

O nível de tensão do jogador diminui quando uma nova área entra na rede. Isso porque os obstáculos ficam mais fáceis de serem superados, graças às intervenções de outros usuários como placas que indicam perigos ou construções. Também é possível para mandar likes a outros jogadores que acrescentaram elementos úteis. Por mais estranho e assustador que seja, é desse cenário bizarro que floresce esperança na criação de Hideo Kojima.

DEATH STRANDING

Quando Lançamento na sexta (8)
Onde R$249,00 (Standard edition) e R$319,00 (Deluxe edition)
Preço PlayStation Store
Elenco Norman Reedus, Guillermo del Toro, Mads Mikkelsen, Léa Seydoux
Produção Japão, 2019
Direção Hideo Kojima
Avaliação Ótimo