17 de novembro de 2019

Resistência na bancada evangélica trava cassino sonhado por Crivella

Prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (Republicanos-RJ), acalenta o sonho de construir um cassino na zona portuária da cidade


Por Folhapress Publicado 02/10/2019

O prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (Republicanos-RJ), acalenta o sonho de construir um cassino na zona portuária da cidade. Mas, por ora, nem Jesus na causa.

Ao menos é o que dizem parlamentares que carregam as bandeiras cristãs no Congresso, onde um projeto de lei de 1991 que regulamenta os jogos de azar no Brasil, banidos há 73 anos, está pronto para ser votado para ser votado no plenário da Câmara. Outro, de 2014, aguarda sua vez no Senado.

Sem a aprovação de um deles, Crivella pode dar adeus à implantação de uma estrutura que atrairá milhões de turistas e bilhões de reais ao país, segundo ele defende. As bancadas evangélica e católica resistem à lábia do prefeito, que é também sobrinho do líder da Igreja Universal do Reino de Deus, Edir Macedo, e bispo licenciado da mesma.

“Agora, você pergunta: mas você é evangélico… Sou prefeito da cidade. Quem acha que é pecado, não joga”, disse Crivella à reportagem. Seus colegas de fé, contudo, não acham a questão tão simples assim e prometem embarreirar o quanto puderem a pauta.

Na frente evangélica, o humor para o assunto é azedo. “Somos totalmente contra, sem possibilidade de negociação”, diz o deputado Marco Feliciano (Pode-SP). “A jogatina leva ao vício, e o vício destrói famílias. O Estado não pode ser sócio disso. Dizem que aquece a economia. Qual o preço de uma família destruída?”

Esse preço não dá para quantificar, mas o time de Crivella estima que, se o Brasil voltar a girar as roletas, o turismo pode injetar R$ 27 bilhões por ano no Estado do Rio sozinho. Já o país arrecadaria R$ 58 bilhões em tributos, o equivalente a dois orçamentos anuais do Bolsa Família. Música para os ouvidos liberais do ministro da Economia, Paulo Guedes.

Autor da proposta no Senado, Ciro Nogueira (PP-PI) diz que Guedes, com quem esteve em junho, “se manifestou completamente favorável” à ideia. Mas frisou que cabe ao presidente dar a palavra final. “O empecilho hoje é isso, os evangélicos que têm muita influência sobre Bolsonaro”, afirma o senador.

Se empolga a equipe econômica do governo, o tema desce menos redondo para Jair Bolsonaro. As cartas, porém, ainda estão na mesa. Em 2018, ainda em campanha presidencial, ele sinalizou um “quem sabe?”: “Há a possibilidade, eu digo uma possibilidade, de jogar para cada estado decidir. Em princípio sou contra, mas vamos ver qual a melhor saída”.

Presidente do bloco de deputados evangélicos, Silas Câmara (Republicanos-AM) diz que sim, eles são contra regularizar jogos, “uma atividade que atrai vícios que destroem famílias”, mas a bancada está aberta aos argumentos de Crivella, seu colega de partido. “Sinto dos membros da frente que não têm como nos convencer, mas estamos abertos a ouvir sempre.”

Afilhado político de Silas Malafaia, um pastor influente no Rio, Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ) vai na mesma linha. “Alguns membros podem até aceitar dialogar, mas tenho certeza de que o evangélico que apoiar a legalização de qualquer modalidade de jogo de azar terá um enorme desgaste no seu eleitorado. A Bíblia é contra. Nenhum evangélico aceita mudar esse conceito. Além da porta que fica aberta para a lavagem de dinheiro e outros crimes.”

Nem a igreja de Crivella abraça essa causa. Em 2017, o jornal da Universal publicou a reportagem “Uma Aposta Furada”, com casos de gente que se deu mal ao cair na tentação da jogatina. Caso de Antônio, 46, um baiano que ganhou R$ 30 milhões na loteria nos anos 1980. Torrou tudo com festanças e amigos. Hoje, estaria na pindaíba, trabalhando como flanelinha.

Está na dúvida se Deus aprova ou não? Só ir à Bíblia atrás da “resposta mais incisiva para ajudar quem sofre com esse tipo de vício”, diz o texto: “‘Vai ter com a formiga, ó preguiçoso, considera os seus caminhos e sê sábio. Não tendo ela chefe, nem oficial, nem comandante, no estio, prepara o seu pão, na sega, ajunta o seu mantimento. Ó preguiçoso, até quando ficarás deitado?'”.

As Escrituras nada especificam sobre jogos de azar, mas cristãos conseguem ver reprimendas a ele nas entrelinhas, citando passagens como esta do livro de Coríntios, lida como um recado a dependentes:

“Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma”.

Outros cristãos menos alérgicos a jogos recuperam um trecho do Antigo Testamento que fala sobre “lançar sortes” para defender que esse hábito não seria de todo estranho a Deus. Numa época remota, seria uma espécie de cara-ou-coroa para revelar a vontade divina, que sempre prevaleceria sobre o acaso.

Crivella diz optar pela linha pragmática. Em experiências como a de Singapura, “não houve problemas de pessoas, por causa de vício, se matarem, não houve doenças, pelo contrário”.

O prefeito afirma contar com o entusiasmo de Sheldon Adelson, magnata dos cassinos de Las Vegas e amigo de Donald Trump que estaria disposto a investir numa estrutura no Porto Maravilha similar à que fez no país asiático: o cassino seria um ponto dentro de um complexo com centro de convenções, hotel e shopping.

“Singapura é um país cristão, rigorosamente evangélico, e fizeram um grande debate”, diz o prefeito. (Na verdade, budismo é a maior crença local, seguida pelo cristianismo.)

Para o secretário municipal de Turismo, Paulo Jobim Filho, a área pela qual sua pasta é responsável é o novo petróleo: se tem algo capaz de resgatar a economia de um estado quase falido como o Rio, é o barulho dos caça-níqueis em ação.

Ele prefere citar números a provérbios. Por ano, o Brasil inteiro recebe menos visitantes de fora (6,7 milhões) do que o museu do Louvre sozinho (7,6 milhões). A Argentina, três vezes menor, atrai 7,5 milhões.

Se o Congresso liberá-la, a indústria do jogo geraria cerca de 300 mil empregos e multiplicaria a leva turística, afirma.

No caso do Rio, ser na área portuária ajudaria, já que muitos cruzeiros, onde cassinos a bordo são comuns, aportam por lá. Jobim lembra à reportagem que, do G20, só Brasil, Indonésia e Arábia Saudita ainda não regulamentaram o jogo. “Os dois últimos, você sabe muito bem, são países islâmicos. E o Brasil, por quê? Vem a pergunta.”

A religião tem sua parcela de culpa. Getúlio Vargas legalizou o jogo associado ao espetáculo de arte em 1933, dando partida na era de ouro dos cassinos –do mais famoso deles, na Urca, Carmen Miranda saiu para arrebatar os EUA com sua salada de frutas na cabeça.

Em 1946, o sucessor de Vargas, Gaspar Dutra, interrompeu o show. Com apoio da Igreja Católica e de zeladores da moral e dos bons costumes, pôs a jogatina na clandestinidade. Sua esposa, a muito católica Carmela Dutra, vulgo Dona Santinha, teria ficado escandalizada com uma reportagem de “O Globo” sobre “as fábricas do vício e do crime”.

Sete décadas depois, engrossando o coro de uma fatia religiosa em expansão no Brasil, a evangélica, a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) se posicionaria contra os projetos de lei que tentam tratorar a ordem de Dutra. Autorizar a volta do jogo “não o tornará bom e honesto”, diz nota da entidade católica.

Dizer que isso contribuiria para tirar o país da crise é apelar à “nefasta tese de que ‘os fins justificam os meios’, falsos argumentos que não consideram a possibilidade de associação dos jogos de azar com a lavagem de dinheiro e o crime organizado”.

Afirma a CNBB: “Os cassinos podem facilmente transformar-se em instrumentos para que recursos provenientes de atividades criminosas assumam o aspecto de lucros e receitas legítimas”.