20 de novembro de 2019

Moro reclama de ataques e recebe afago de Doria, rival de Bolsonaro para 2022

Pressionado pela divulgação de mensagens da época em que atuava na Operação Lava Jato, o ministro Sergio Moro (Justiça) recebeu afago do governador João Doria (PSDB), que entregou a ele a principal honraria do estado de São Paulo nesta sexta-feira (28)


Por Redação Educadora Publicado 28/06/2019
Divulgação/Governo do Estado de São Paulo

Pressionado pela divulgação de mensagens da época em que atuava na Operação Lava Jato, o ministro Sergio Moro (Justiça) recebeu afago do governador João Doria (PSDB), que entregou a ele a principal honraria do estado de São Paulo nesta sexta-feira (28).

Ao receber a Ordem do Mérito, o ex-juiz reclamou dos “vários ataques” que vem sofrendo e criticou “um certo revanchismo”, referindo-se aos questionamentos à sua imparcialidade no julgamento de processos como o do ex-presidente Lula (PT).

O gesto de Doria contrasta com a postura ambígua do presidente Jair Bolsonaro (PSL), que demorou quatro dias para se pronunciar em defesa de Moro quando as primeiras mensagens foram publicadas e, depois, disse que “não existe confiança 100%”.

O tucano é apontado como candidato à Presidência em 2022, condição que foi reforçada nos últimos dias por declarações do atual ocupante do Planalto. Na cerimônia desta sexta, o governador não mencionou Bolsonaro, encerrando uma semana de desgaste na relação dos dois, por causa do imbróglio sobre a possível saída da Fórmula 1 de São Paulo.

Durante seu discurso no Palácio dos Bandeirantes, Moro classificou como “um falso escândalo” o episódio das mensagens divulgadas inicialmente pelo site The Intercept Brasil. As conversas mostram proximidade entre o então juiz e procuradores do Ministério Público Federal que integravam a força-tarefa.

Ele agradeceu à mulher, Rosangela Moro, que o acompanhava na solenidade, pelo suporte ao longo do período em que atuou na operação e agora, como ministro. “Não tem sido muito fácil”, desabafou.

“Nas últimas três semanas, tenho sofrido vários ataques. Achei que a Operação Lava Jato tinha ficado para trás, mas um certo revanchismo às vezes reaparece”, disse o ministro, aludindo às conversas que vieram à tona em 9 de junho.

Em sua fala, o membro da equipe de Bolsonaro também expressou gratidão ao presidente e afirmou que o superior “tem prestado o seu apoio” desde o início da crise. Bolsonaro repete que o ex-juiz é um patrimônio nacional.

Cercado de membros do governo e parlamentares, Doria usou o evento para exaltar Moro como símbolo do combate à corrupção, agradeceu pela contribuição dele na transferência de líderes do PCC (Primeiro Comando da Capital) para presídios federais –a justificativa oficial para a homenagem– e atacou Lula.

“O Brasil precisa de mais Moros e menos Lulas”, discursou Doria, sob aplausos.
“Não foi uma batalha pessoal de um contra o outro. Se houve uma causa na prisão de Lula, foi a causa da verdade contra a mentira. E, para o bem do Brasil, venceu a verdade, venceu o Brasil, venceu Sergio Moro”, acrescentou.

“Se não fosse este homem, liderando um grupo de patriotas, com juízes, com desembargadores, com promotores, nós não teríamos a Lava Jato no Brasil, e não teríamos trancafiados em prisões aqueles que usurparam, roubaram e enganaram os brasileiros”, afirmou o governador.

Ele disse também que “o início de um esquema criminoso começou em São Paulo” e recordou, sem citar Lula, que “o tríplex” e “o sítio” ficam no estado. O ex-presidente foi condenado em processos relacionados aos dois imóveis, em Guarujá e em Atibaia.

“Graças à Lava Jato, o Brasil está recuperando mais de R$ 13 bilhões desviados pela corrupção de governos petistas, de corrupção de governos do PT. É preciso deixar claro e consignado que foram governos petistas que contribuíram para assaltar os cofres públicos e roubar a consciência de brasileiros”, afirmou Doria.

O ex-magistrado foi admitido no grau de grã-cruz (o mais elevado) da Ordem do Ipiranga, honraria que foi criada em 1969. O título é usado para reverenciar artistas, políticos, empresários e personalidades que tenham prestado “serviços de excepcional relevância” ao estado e ao Brasil.

Moro recebeu a faixa e a medalha que simbolizam o prêmio e posou para imagens segurando a mão do governador.
Deputados do PT na Assembleia Legislativa entraram com um projeto para tentar cassar a homenagem, argumentando que a condecoração a Moro não se encaixa nas regras previstas para a concessão da honraria. O pedido ainda não foi votado.

Doria anunciou a intenção de dar a medalha a Moro no dia 14, durante um jantar em sua homenagem no Rio de Janeiro. A decisão foi oficializada em um decreto assinado por ele três dias depois.

Provável candidato à sucessão de Bolsonaro, o governador se apressou em fazer um aceno a Moro para reforçar o elo com seus potenciais eleitores em uma disputa nacional, na avaliação de aliados do tucano ouvidos pela reportagem.

O entendimento é o de que o apoiador de Doria é fundamentalmente antipetista e, por consequência, favorável ao trabalho de Moro e da Lava Jato. Desde quando era prefeito da capital, o tucano busca antagonizar com o PT.
Outro possível ganho embutido na aproximação é a nacionalização de sua imagem, lembram correligionários do tucano. Estar bem na foto com aquele que detém a aura de herói para uma parcela dos brasileiros pode se reverter em voto lá na frente.

A tentativa de expandir sua imagem para além das divisas paulistas pôde ser vista no discurso de Doria. Mais de uma vez, ele fez referência “aos brasileiros de São Paulo”.

Tanto aliados quanto opositores não tiveram dúvida de que o gesto é parte do cálculo político do tucano de olho em 2022. Ele frisou que a decisão foi um agradecimento a Moro pela parceria no episódio do PCC e um reconhecimento ao trabalho dele no combate ao crime. Publicamente, Doria desconversa quando questionado sobre o plano de tentar a Presidência.

Nos últimos dias, Bolsonaro contribuiu para antecipar o calendário da sucessão. Ele afirmou não descartar disputar a reeleição e passou a dizer abertamente que vê Doria como candidato.

Uma dessas manifestações foi feita em meio ao debate sobre a migração do GP Brasil de F-1 para o Rio, ideia que desagrada ao governador paulista.

Doria reagiu com ironia à fala do presidente de que havia 99% de chances de a prova ser transferida para o Rio. Disse que “só a cavalo” é possível chegar a Deodoro, circuito que passaria a sediar a prova.

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Pessoas próximas ao tucano dizem que o estresse entre os dois é momentâneo, por envolver uma disputa na qual ambos estão empenhados. Ninguém arrisca palpite, contudo, sobre o prazo de validade da dobradinha “BolsoDoria”, que pautou o segundo turno de 2018 no estado.