25 de maio de 2019

Sobrevivente de ataque em Suzano vive com bala alojada e bolsa de colostomia

Ela é uma das 11 pessoas feridas que sobreviveram ao massacre ocorrido na Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano (Grande SP).


Por Folhapress Publicado 13/05/2019
Reprodução

Quem vê Jenifer Silva Cavalcanti, 15, toda maquiada e andando, ainda que devagar, não percebe as marcas que a garota carrega física e emocionalmente.
Ela é uma das 11 pessoas feridas que sobreviveram ao massacre ocorrido na Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano (Grande SP). Cinco estudantes, duas funcionárias, um empresário e os dois atiradores morreram.

Nesta segunda-feira (13), o ataque completa dois meses, e Jenifer ainda está convalescente. A menina entrou na mira de Guilherme Taucci, 17, e foi baleada duas vezes.
“Eu caí no chão e fiquei imóvel, na mesma posição, fingindo estar morta porque o Guilherme estava checando se havia alguém vivo ali”, disse à reportagem, em sua primeira entrevista após o episódio.

Depois de baleada, presenciou a morte do colega Samuel. “O Guilherme exigiu do Samuel pedidos de clemência para viver”, conta. Samuel Melquíades Silva de Oliveira, 16, morreu com um tiro na cabeça e caiu sobre os pés de Jenifer.

O primeiro tiro que a acertou transpassou seu ombro esquerdo. Mas o segundo é que ainda a impede de voltar à vida normal. Esse atingiu o abdômen, perfurou o intestino e parou numa região próxima à coluna. O projétil permanece dentro do corpo da menina.

A adolescente contou que mesmo baleada conseguiu sair do colégio e andar em busca de socorro. “Quando eu vi que eles [atiradores] estavam distantes, me levantei e saí correndo. Entrei na casa de um vizinho da frente e aguardei até uma ambulância chegar.”

Jenifer ficou sete dias internada em um hospital de Mogi das Cruzes (SP). Lá, passou por cirurgia para a inserção de uma bolsa de colostomia.
O uso do equipamento, diz ela, paralisou sua vida. “Ainda não consegui voltar à escola porque é constrangedor limpar a bolsa fora de casa”, diz. “A bolsa tem mexido muito até com a minha vaidade.”

Entre os 11 feridos, a estudante é a única que ainda vai precisar retornar à mesa de cirurgia, para refazer o trânsito intestinal que foi danificado pelo tiro.
O procedimento é semelhante ao que foi submetido o presidente Jair Bolsonaro (PSL). Ele conviveu por meses com uma bolsa de colostomia junto ao corpo após ser vítima de uma facada em Juiz de Fora (MG) na campanha eleitoral do ano passado.

Afastada da Raul Brasil por tempo indeterminado, Jenifer foi autorizada a fazer trabalhos escolares em casa para não atrasar os seus estudos. Ela está no 1º ano do ensino médio.
Jenifer não tem ódio dos atiradores. “Eles tomaram a medida mais drástica que é tirar a vida de uma outra pessoa. Só sinto pena deles”, afirma.

O processo de recuperação, diz, serviu para ela pensar em seu futuro. “Passei por tantos tratamentos e decidi que tenho paixão pela enfermagem. Quero cuidar de pessoas”.
A realização do sonho profissional será custeada pela indenização que ela receberá do governo do estado.

Acompanhada da reportagem, Jenifer também visitou o muro da Raul Brasil, que virou uma lousa de recados às vítimas.

Reconheceu nomes dos amigos, sentiu-se aguçada a voltar às aulas e percebeu mudanças na estrutura física do colégio. “Só espero que tudo volte logo ao normal”, diz.
A Raul Brasil de fato implementou ações para aumentar a segurança na unidade, uma das principais reivindicações da associação de pais.

No portão principal do prédio, quem chega precisa se identificar por um interfone. Só depois um funcionário libera ou não a entrada. No saguão, uma parede erguida dá acesso a pessoas de fora apenas à área da secretaria.

Foram instaladas mais 16 câmeras e contratados dois seguranças, que se revezam no monitoramento da escola por 24 horas ao longo da semana.
Também foi criado um acesso exclusivo ao Centro de Línguas, que fica dentro das dependências do colégio. Está prevista ainda a instalação de catracas biométricas nos acessos.