17 de outubro de 2019

Ônibus voltam a circular após protesto de motoristas parar corredores em SP; haverá greve nesta sexta

O alvo do protesto é a gestão Bruno Covas (PSDB), que anunciou que vai cortar linhas e reduzir a frota de ônibus, o que alimenta temor de demissões.


Por Folhapress Publicado 05/09/2019
Foto: Divulgação/Sindmotoristas

Ao menos 21 dos 29 terminais de ônibus de São Paulo foram bloqueados na tarde desta quinta-feira (5) durante um protesto de motoristas e cobradores que também paralisou faixas de ônibus e corredores. A Prefeitura, para mitigar o problema, suspendeu o rodízio na tarde desta quinta e durante toda a sexta-feira (6).
Por volta das 17h45, os ônibus voltaram a circular nos corredores e terminais -segundo os motoristas, para que a população possa voltar para casa. No terminal Bandeira, no centro, o movimentou retomou seu nível normal por volta das 18h10.
Mais cedo, corredores de ônibus na avenida 23 de Maio, na avenida 9 de Julho e na rua da Consolação ficaram travados, com consequências em estações de metrô superlotadas, trânsito caótico e preços de carros por aplicativos subindo.
Uma greve foi convocada para esta sexta-feira (6), a partir de 0h.

O alvo do protesto é a gestão Bruno Covas (PSDB), que anunciou que vai cortar linhas e reduzir a frota de ônibus, o que alimenta temor de demissões. Manifestantes também cobram o pagamento de participação nos lucros das empresas de ônibus. A preocupação com relação a mudanças estruturais no setor fez com que a adesão ao protesto desta quinta fosse maior que a verificada em ocasiões anteriores recentes.
O protesto causou fortes reflexos no trânsito da cidade, que registrava, às 17h, 112 km de vias congestionadas -a média para esse horário é de até 95 km de congestionamento. Por volta das 17h30, a chuva que caía na capital ganhou força, agravando o nó no trânsito.

Segundo a prefeitura de São Paulo, os terminais fechados foram Bandeira, Princesa Isabel, Mercado e Parque Dom Pedro, no centro; Santana (zona norte); A.E. Carvalho e São Miguel (na zona leste); Campo Limpo; Capelinha; Jardim Ângela, Santo Amaro, Varginha e Sacomã (zona sul) e Palmeiras-Barra Funda, Lapa e Pinheiros (zona oeste). A prefeitura ainda confirmaria quais eram os outros cinco.
Por causa da superlotação no metrô, a Linha 4-Amarela decidiu fechar parcialmente a saída da estação Pinheiros, que desemboca no terminal de ônibus. Alguns locais no centro, como a Biblioteca Mario de Andrade, anteciparam seu fechamento, encerrando as atividades às 18h (em vez de às 22h).

Apesar dos terminais travados, segundo Valmir da Paz, presidente em exercício do sindicato da categoria, São Paulo passou nesta quinta apenas por um protesto que contou com cerca de 60% dos trabalhadores.
A manifestação estava marcada para a manhã, em frente à prefeitura, segundo o sindicato que representa a categoria. Os motoristas e cobradores decidiram pelo protesto em assembleia na quarta-feira (4), quando sindicalistas disseram que queriam parar a cidade.
Mas a manifestação ganhou força apenas à tarde, quando motoristas bloquearam a 9 de Julho e a paralisação passou a afetar outras vias. Os ônibus são o meio motorizado que mais transporta passageiros em São Paulo.
Funcionários da estação Sé do metrô relataram ter sido pegos de surpresa pela paralisação, já que esperavam apenas a greve na sexta-feira.

Por volta das 12h30, os manifestantes fecharam o Terminal Bandeira, no centro da cidade. As auxiliares de enfermagem Laís Vieira, 25, e Priscila Vieira, 33, estavam juntas em um ônibus com destino ao terminal, de onde iriam para a rua 25 de Março. Mas o cobrador alertou que estava tudo parado, Priscila pediu para descer. Tentaria pegar outro ônibus na avenida Paulista.
Laís tentou acionar um aplicativo de carros, mas os preços, segundo ela, haviam disparado.
A aposentada Tereza Pardal, 84, diz estar há duas horas tentando voltar para casa, desde que o ônibus em que viajava parou no Terminal Princesa Isabel. De lá, ela queria pegar outro ônibus até a Vila Maria, onde mora. “Se eu soubesse, não tinha saído de casa hoje”, lamenta. Ela tentou pegar táxis, mas vários deles estavam lotados.
Dona Romilda Freitas da Silva, 70, estava dentro de um ônibus a caminho de casa, em Itaquera, acompanhada da sobrinha que veio da Bahia para passar uns dias. Com a paralisação, ela precisou descer e caminhar até o metrô Sé.
Silva conta que em dias normais levaria cerca de 40 minutos para fazer o trajeto do centro da cidade até onde vive. “Nem o motorista sabia o que estava acontecendo, né? Pelo menos a gente tava aqui perto da Sé. Agora não sei como faz para chegar em casa, nunca fui de metrô”.

No Terminal Parque Dom Pedro, região central, o movimento era intenso de passageiros que chegavam para pegar o ônibus e eram surpreendidos com a paralisação por volta de 13h30.
“Estou enroscada. Nem sei o que fazer nem para onde ir. Ainda bem que deixaram a gente ficar aqui dentro. Está mais quentinho”, diz a dona de casa Maria das Graças da Silva Sousa, 38, que passou por perícia médica no posto do INSS (Instituto Nacional de Seguro Social) e tinha de retornar para casa na região do Aricanduva (zona leste) e chegou ao terminal por volta das 12h.
A cozinheira Seni França de Brito, 52, todos os dias pega, na Mooca, ônibus Parque D. Pedro para ir para casa. Hoje, devido a paralisação, ela precisou usar o metrô mesmo sem saber se haveria uma lotação na saída da estação Penha, onde desce, para continuar viagem.
Ela conta que ao desembarcar na zona leste, gasta ainda 30 minutos na lotação para chegar em casa. “Liguei pro meu filho para saber se ia ter como chegar, mas ele não sabia. Uma amiga que está lá na saída da Penha disse que tem lotação, que está funcionando, mas que tem uma fila enorme”

A pressão dos trabalhadores ocorre enquanto a prefeitura tenta tirar do papel a licitação do novo sistema de ônibus da capital. O processo se arrasta desde 2013 e, no último mês, a gestão Covas sofreu uma derrota quando a Justiça decidiu que o prazo dos contratos, que chegaram a ser licitados, estava irregular.
A discussão na Justiça é se os contratos devem ter 15 ou 20 anos. Uma lei municipal prevê 15 anos. Mas a Câmara Municipal, atendendo à pressão de empresários de ônibus, aumentou o prazo para 20 anos. A alteração foi feita pela emenda em um projeto de lei que versava sobre outro tema. Em primeira e segunda instância, a Justiça decidiu que a alteração era ilegal. A prefeitura estuda agora como recorrer da decisão.

Enquanto o caso corria, a prefeitura firmou um acordo com os donos de ônibus de São Paulo para que passassem a vigorar as regras dos contratos que já haviam sido licitados e que estavam travados na Justiça. O acordo só foi possível porque as antigas empresas do ramo são exatamente as mesmas que venceram os novos contratos na licitação.
As novas regras dão conta de uma reorganização dos ônibus pela cidade, o que inclui o corte de linhas e frota de ônibus. A antiga frota da cidade tinha 13.600 veículos. Os novos contratos preveem 12.700. O sindicato dos motoristas e cobradores calcula que 450 ônibus já saíram de circulação.
A prefeitura defende que um novo desenho de linhas na cidade é necessário para trazer mais eficiência e menor custo. O órgão diz ainda que, apesar do cortes de ônibus, aumentará a oferta de lugares disponíveis nos veículos.