15 de dezembro de 2019

Série tem Maradona em estado puro e xingamento a Felipão

Em praticamente todas as vitórias dessa trajetória, a celebração é feita ao som de cumbia e termina com o técnico dançando (até onde seus joelhos permitem)


Por Folhapress Publicado 27/11/2019
Crédito: Gimnasia y Esgrima La Plata

Darío Benedetto recebe de frente para o gol, limpa o zagueiro Luan e chuta forte para superar Weverton e marcar o segundo gol do Boca Juniors (ARG) sobre o Palmeiras, no jogo de ida da semifinal da Libertadores de 2018.

“Gol! Gol! Vamos, hijo de puta! (dispensa tradução)”, grita Diego Armando Maradona, que não está em seu camarote na Bombonera, mas sim dentro da sala da comissão técnica do Dorados de Sinaloa, do México, clube que o contratou para ser treinador.

Ainda eufórico, Maradona emenda: “Scolari, botón! Scolari, botón!”, seguido de uma frase com palavras enroladas que termina em “la puta madre que te parió!” -botón é um xingamento generalizado da gíria portenha que pode significar “cagueta” ou “delator”, também usado para se referir a policiais. Estas cenas do ídolo argentino podem ser vistas em nova série da Netflix, “Maradona no México”, que estreou neste mês de novembro. Em sete capítulos com aproximadamente 30 minutos cada, o fã de futebol enxerga, mesmo no contexto específico de seu trabalho no Dorados, as glórias, dores e contradições de toda uma carreira.

Contratado pelo clube mexicano em 2018, o técnico chega com a missão de subir a equipe para a primeira divisão do país.

As imagens dos treinos e conversas no vestiário evidenciam o que todos mais ou menos já sabem sobre suas qualidades como treinador. Maradona influencia muito pouco na parte tática, função destinada ao seu auxiliar Luis Islas, terceiro goleiro da Argentina no título mundial de 1986.

Mas impressiona a forma como a sua presença tem ascendência sobre os jogadores. No elenco, ele encontra quatro argentinos. O goleiro Gaspar Servio e o atacante Jorge Córdoba são os mais impactados pela figura do compatriota e ídolo.

O zagueiro mexicano Jesús Chávez chega a cogitar colocar o nome do treinador no filho que está por nascer, sugestão rechaçada pela esposa: “Nem vem.” Mesmo com dificuldade para encontrar as palavras, afinal nunca teve enorme aptidão como orador, os discursos de Maradona no vestiário são capazes de injetar ânimo nos atletas.

Ele pega o time nas últimas posições da segunda divisão e leva até a decisão do Apertura, contra o Atlético San Luis (MEX). Em praticamente todas as vitórias dessa trajetória, a celebração é feita ao som de cumbia e termina com o técnico dançando (até onde seus joelhos permitem).

No jogo de ida das finais, revoltado com a não marcação de pênalti, Maradona discute com a arbitragem e com o técnico do time adversário.

Expulso de campo, ele deixa o gramado fazendo o sinal da cruz e dá um beijo na grama. Ao chegar na sala da comissão técnica, diz para o câmera: “O técnico do San Luis me mandou calar a boca. E eu disse, ‘É mesmo? Sabe quantas partidas eu joguei? E você, tem que apresentar identidade para entrar na sua casa, filho da puta!'”, conta Maradona, antes de dar um tapa na mesa.

Ao episódio da discussão com o técnico rival somam-se outros que mostram o ex-jogador contrapondo a imagem do ídolo de origem simples, que agradece os massagistas do clube por tratarem seus joelhos, castigados pelas várias infiltrações durante a carreira, e o showman que gosta dos holofotes, mas que nem sempre sabe lidar da melhor forma com eles.

Às vésperas de um jogo do Dorados, em um treino aberto para torcedores, o argentino vai até a grade autografar camisas e bonés. Os seguidos gritos de “Diego! Diego!” lançados por crianças impacientam o técnico, que responde: “Se continuarem gritando ‘Diego’, vou embora, ok? Estou aqui respeitando vocês, então me respeitem também.”

Em um jantar organizado pelo clube para arrecadação de fundos junto a empresários da região, conhecida como uma das mecas do narcotráfico mundial, Maradona se atrasa por mais de uma hora e meia. A assessora do clube, anfitriã do evento, se mostra preocupada. “Tenho medo que aconteça o que muitos previram: que Diego não venha”, diz ela. O treinador, por fim, vai ao jantar.

Apesar da injeção de ânimo e a expectativa gerada com sua chegada, o Dorados não consegue o acesso em 2018. A partir daí, o roteiro, tanto da série como da própria história pessoal de Diego, ganha ainda mais contornos maradonianos.

Recém-separado de sua namorada na época, Rocío Oliva, Maradona é internado em Buenos Aires com uma hemorragia no estômago, transformando sua volta ao Dorados para 2019 em uma incógnita. O presidente do clube, José Antonio Nuñez, tenta insistentemente falar com o argentino, sem sucesso. “Diego não vem com manual de instruções”, desabafa.

Liberado pelos médicos, o campeão do mundo em 1986 deixa a clínica na capital argentina mandando os repórteres presentes no local “chuparem um pau”. Maradona em estado puro.

Depois de muito insistir, o presidente Nuñez consegue falar com o treinador, que garante o retorno ao México. A temporada já está em andamento, e o Dorados, assim como no ano anterior, figura nas últimas posições da segunda divisão. Mais uma vez, Diego Armando Maradona parece conseguir, por meio de sua imagem e presença, recuperar a auto estima dos jogadores. Após reação da equipe, o time de Sinaloa atinge novamente os playoffs (mata-mata) de acesso e chega a uma segunda decisão sob seu comando, desta vez no Clausura.

O adversário, de novo, é o Atlético San Luis. Carrasco do Dorados no Apertura em 2018, o time vence o Clausura em 2019 e, com a conquista dos dois turnos, consegue o acesso à elite do futebol mexicano. A equipe de Maradona, pelo segundo torneio consecutivo, vê a glória escapar pelos dedos.

Com a temporada finalizada, o técnico reúne todo o elenco no vestiário para uma despedida. Com um discurso simples, pede que todos mantenham a humildade e agradece todo o apoio e carinho que recebeu no período.

“Obrigado por me fazerem voltar a viver. No Dorados, eu encontrei gente como eu”, diz, antes de beijar o rosto de cada um dos jogadores, que certamente não serão mais os mesmos depois do que viveram com Diego Armando Maradona.