20 de novembro de 2019

Diego Hypólito assume ser homossexual e fala de abusos na ginástica

"Quero que as pessoas saibam que eu sou gay e que eu não tenho vergonha disso"


Por Folhapress Publicado 08/05/2019
Divulgação

O ginasta Diego Hypólito, 32, assumiu ser homossexual em entrevista ao UOL, nesta quarta-feira (8). Medalha de prata no solo nos Jogos Olímpicos Rio 2016, o atleta falou abertamente sobre sua sexualidade pela primeira vez e contou sobre como foi difícil para ele manter isso em segredo por anos.
“Quero que as pessoas saibam que eu sou gay e que eu não tenho vergonha disso. E não é porque eu sou que outras pessoas vão querer ser. Isso não tem nada a ver. Já vivi muitos anos pensando no julgamento que os outros fariam sobre mim. Hoje só aceito ser julgado por Deus”, afirmou.
Hypólito afirmou que tinha 19 anos quando assumiu para si mesmo que era homossexual, mas que só teve coragem de contar para sua família aos 28, às vésperas do Mundial da China, em 2014.
“Quando passei a entender melhor a minha sexualidade, meu maior problema sempre foi como iria contar para a minha família. As pessoas não sabem, mas a gente tinha uma origem humilde, do interior e religiosa. Eles nunca entenderiam”, disse. “Nem sempre tinha o que comer, chegamos a ficar meses sem energia elétrica. Como é que eu ia levar mais um problema para eles?”
O medo de revelar o segredo fez o ginasta conviver com insegurança, privando-se de sua liberdade. Ele chegou a usar disfarces para frequentar baladas e shows voltados ao público LGBT, como fez na noite em que foi a uma casa noturna acompanhado do também ginasta Michel Conceição.
“Ele [Michel Conceição] me levou a uma balada gay, mesmo sendo proibido sair à noite na seleção. Eu fui todo disfarçado: boné, óculos escuros, capuz. Isso se repetiria nos anos seguintes, era ridículo. Meus amigos livres, leves e soltos e eu lá, cheio de roupas, suando no calor, virando a cara quando alguém fixava o olhar”, contou.
O ginasta afirmou, ainda, que só recentemente teve coragem para ir a uma balada LGBT sem se esconder.
“Há uns dias fui à Tokka, uma festa gay em São Paulo. Aos 32 anos, fui pela primeira vez de cara limpa, sem disfarce, sem ter vergonha de ser quem eu sou, de viver o que eu quero viver. Para mim é uma libertação. Foi a primeira vez que realmente me diverti numa festa gay.”
A relação do atleta com a família também voltou ao normal, segundo ele. No início, houve um estranhamento, principalmente por parte da mãe dele.
“Minha mãe me aceita como eu sou. Minha mãe me ama. E eu amo meus pais e tudo o que eles fizeram para que eu, minha irmã e meu irmão chegássemos até aqui”, disse. ” Não escolhi ser gay, porque ser gay não é uma escolha. É simplesmente o que eu sou.”
Hypólito revelou ainda que sofreu abusos no meio da ginástica artística, que o fizeram ganhar coragem para assumir sua homossexualidade como forma de tentar combater isso.
“Já me prenderam em um equipamento de treino apelidado de ‘caixão da morte’, já me fizeram segurar uma pilha com o ânus e já me deixaram pelado, junto com outros dois atletas, para escrever no nosso peito a frase ‘Eu’, ‘sou’, ‘gay’. Uma palavra em cada um para nos humilhar”, desabafou.
“Eu preciso falar sobre essas coisas para que elas nunca mais se repitam. Ninguém precisa passar pelo que eu passei para ser campeão”, acrescentou.
Em 2018, Diego Hypólito já havia falado sobre outros abusos que ele sofreu no meio da ginástica artística. Segundo o atleta, os atos de humilhação eram praticados por outros ginastas, porém com a conivência dos treinadores.
“Os casos de bullying aconteciam regularmente, sempre com os alunos mais velhos, mas com a conivência do técnico. Eu prefiro não expor (nomes), porque não sei se eles me dão o direito. Mas foi com muitas pessoas”, disse o ginasta.
A denúncia feita por Hypólito ocorreu um dia após a divulgação de uma reportagem da TV Globo, na qual o ex-treinador da seleção brasileira de ginástica Fernando de Carvalho Lopes, que comandou a equipe entre 2014 e 2016, era acusado de abusar sexualmente de atletas.
Em março deste ano, Fernando de Carvalho Lopes foi banido do esporte pelo STJD (Superior Tribunal de Justça). Ele também foi multado em R$ 1,6 milhão. Na esfera judicial, o inquérito contra ele ainda está em andamento.
Carreira Diego Hypólito nasceu em Santo André, no ABC paulista, em 19 de junho de 1986. Ele iniciou sua carreira na ginástica artística em 2001. Desde então, ele participou de duas Olimpíadas (Pequim 2008 e Rio 2016), dois Jogos Pan-Americanos (Santo Domingo 2003 e Rio 2007), além de seis Mundiais de Ginástica (Debrecem 2002, Anaheim 2003, Melbourne 2005, Arhus 2006, Stuttgart 2007 e Londres 2009).
Ele conquistou uma medalha de prata olímpica nos Jogos Rio 2016; duas medalhas de ouro, uma de prata e uma de bronze em Mundiais; cinco ouros e três pratas em Jogos Pan-Americanos; e mais três ouros em Jogos Sul-Americanos.