07 de abril de 2020

Com tratamento de astro, Massa vive sofrimento de iniciante na F-E

Piloto está revivendo a experiência de ser um novato no grid


Por Folhapress Publicado 22/01/2020
Arquivo/Agência Brasil

Aos 39 anos e com três décadas de carreira no automobilismo, Felipe Massa está revivendo a experiência de ser um novato no grid. Desde 2018, ele disputa a F-E, categoria de carros elétricos criada em 2014, na qual o paulista não conseguiu ainda uma vitória nem uma sequência de bons resultados.

Segundo brasileiro com mais corridas disputadas na F-1 (269 GPs de 2002 a 2017) e o quarto com maior número de pódios, (41, sendo 11 vitórias), Massa terminou somente uma vez entre os três primeiros colocados em um E-Prix, como são chamadas as provas de F-E. Foi na etapa de Mônaco, na temporada 2018/2019.

Ele mesmo admite que se cobra para apresentar um desempenho melhor. “A ansiedade pesa bastante. Eu sei que tenho ritmo para vencer. Falta só encaixar as coisas para conseguir uma vitória”, disse o piloto à Folha de S.Paulo, em Santiago, no Chile, onde disputou a terceira etapa da temporada 2019/2020, no último fim de semana.

Na ocasião, ele largou em quarto, mas terminou a prova em nono após se envolver em dois acidentes, um deles com seu companheiro na equipe Venturi, o suíço Edoardo Mortara, 33. O resultado, contudo, ainda rendeu ao brasileiro dois pontos, os primeiros dele no campeonato.

O desempenho aquém da expectativa do próprio piloto, no entanto, não o impede de ser tratado como um dos grandes astros da F-E. A categoria vê no brasileiro uma espécie de garoto-propaganda para ajudar a popularizar a competição, explorando a notoriedade que os anos de F-1 deram a ele.

Em seu ano de estreia no campeonato de carros elétricos, por exemplo, Massa foi escolhido para estrelar o vídeo que apresentava a primeira corrida da temporada, na Arábia Saudita, em 2018.

Produzido na cidade de Al-Diriyah, a peça promove um duelo entre o piloto e um falcão peregrino, capaz de atingir 320 km/h quando está atrás de uma presa. Pilotando um carro de F-E, Massa consegue ser mais rápido do que a ave.
Ao longo da competição, ele voltaria a participar de outras ações de marketing, como na etapa de Roma, quando preparou pizzas para os torcedores que visitavam a área dos boxes.

Na recente prova de Santiago, o paulista foi o escolhido pela categoria para ser o primeiro a testar uma nova câmera de transmissões de TV. Apelidado de “olho do piloto”, o equipamento foi colocado no capacete do brasileiro, na altura dos olhos. “Ele coloca você no cockpit”, explica Massa.

Durante a prova, o narrador oficial da corrida citava com frequência o nome do brasileiro, mesmo sem ele estar entre os primeiros colocados.
Massa só não recebe maior destaque devido à ausência de resultados expressivos, algo pelo qual ele se cobra. “Eu sempre tive pressão, desde o kart até a F-1. Isso vai passar e logo as coisas vão dar certo”, afirma.

Também egresso da F-1, Lucas Di Grassi vê o compatriota e amigo com dificuldades para se adaptar às diferenças entre os carros da principal categoria do automobilismo mundial e os da F-E.
“Toda categoria tem as suas especificidades, seja turismo, Stock Car, F-1 ou F-E. Tem que entender como funcionam os pneus, como é a dinâmica de corrida, quais as prioridades, são vários fatores. Na F-E, você ainda tem de saber administrar a energia”, diz Di Grassi.

Segundo o piloto da Audi, campeão da competição de carros elétricos na temporada 2016/2017, na F-1 a maior preocupação das equipes é com o jogo pneus e como preservá-los durante um GP. “O Hamilton tem uma vantagem sobre os outros porque ele conseguem extrair mais dos pneus e ainda preservá-lo”, analisa.

Na F-E, a atenção está voltada para o consumo de energia. Como os carros são movidos à bateria, cada competidor precisa saber administrar o quanto vai gastar ao longo de uma corrida para ter potência suficiente até o final da prova.
“Dirigir o carro o mais rápido possível, gastando uma energia controlada, é uma técnica muito difícil. Não é uma coisa que você aprende nas outras categorias”, afirma. “O Felipe [Massa] é um grande amigo meu, é um dos maiores pilotos do Brasil, mas obviamente ele precisa ganhar experiência na F-E. Ele precisa aprender, e isso vai vir com o tempo.”

*O repórter viajou a Santiago a convite da F-E